Aniki-Bobó é um Clássico de Veneza

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O Festival de Cinema de Veneza vai exibir este ano, na prestigiada secção Clássicos de Veneza, a cópia restaurada de Aniki-Bobó, a primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira, realizada em 1942. A inclusão desta obra no programa de clássicos é mais do que um gesto simbólico: é uma afirmação clara do valor intemporal de um dos filmes fundadores do cinema português moderno e da visão profundamente singular do realizador portuense, que dedicou mais de oito décadas da sua vida à arte de filmar.

Aniki-Bobó é um retrato delicado e realista da infância no Porto, centrado num grupo de crianças que vivem entre a inocência e os dilemas morais de um quotidiano marcado por descobertas, transgressões e laços de amizade. Filmado com atores não-profissionais e num tom quase documental, o filme marcou uma rutura com os modelos narrativos da época. Recebido com frieza no seu tempo, só viria a ser reconhecido décadas mais tarde como uma obra-prima,— pioneira no neorrealismo cinematográfico, anterior até ao surgimento do movimento italiano.

Manoel de Oliveira, nascido no Porto em 1908, foi um dos mais longevos e prolíficos cineastas do mundo. Estreou-se em 1931 com a curta documental Douro, Faina Fluvial, e só em 1942 realizou Aniki-Bobó, uma obra que, apesar do sucesso tardio, estabeleceu as bases para o seu estilo: contemplativo, atento aos silêncios, ao tempo e à palavra. Durante décadas, a sua filmografia foi construída à margem do sistema e sem cedências comerciais, até alcançar reconhecimento internacional a partir dos anos 80, com obras como Francisca, Os Canibais, Vale Abraão, O Dia do Desespero ou O Quinto Império.

Com um ritmo próprio e uma estética inconfundível, Oliveira foi um cineasta do tempo, do tempo que passa nas vidas, na História, na paisagem, no próprio cinema. O seu percurso é também um testemunho de persistência artística: foi apenas com mais de 70 anos que começou a filmar com regularidade, mantendo-se ativo até ao fim da vida. Realizou o seu último filme, O Velho do Restelo, em 2014, com 105 anos. Faleceu no ano seguinte, deixando um legado de mais de 60 obras.

Ao longo da carreira, foi distinguido com os maiores prémios internacionais, incluindo o Leão de Ouro de Carreira em Veneza (2004), o Prémio do Júri em Cannes, o Légion d’Honneur em França e a Ordem de Santiago da Espada em Portugal.

A exibição de Aniki-Bobó em Veneza é, assim, um regresso simbólico ao ponto de partida de uma obra que moldou o cinema português e influenciou gerações de realizadores em todo o mundo. É também uma oportunidade para redescobrir um filme-poema sobre a infância, o Porto e a humanidade, e para relembrar o olhar único de um mestre que filmou sempre com tempo, contra o tempo.

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