Inês Telles na primeira pessoa
Após a abertura da sua primeira loja física em Lisboa, a Ritmo Urbano esteve à conversa com Inês Telles para poder conhecer melhor esta artesã joalheira e o seu novo projeto.
– Quem é Inês Telles?
Sou uma pessoa contemplativa e curiosa, gosto de observar, de tocar e experimentar. A novidade, o movimento e a mudança são importantes para mim.
Sou formada em Historia da Arte e na joalharia encontro forma de explorar e materializar ideias, gostos e simbolismos.
Sou uma recolectora e colecionadora de objectos curiosos e elementos naturais mortos. Crio composições com estes registos e componho universos estéticos que me ajudam a alimentar a inspiração e a criatividade.
– Como te apresentas a quem nunca ouviu falar de ti?
A marca Inês Telles é um projeto de joalharia de autor, com um cunho pessoal e uma estética própria.
Com metais nobres e sob técnicas tradicionais, cada peça é pensada e construída de forma manual no atelier em Lisboa. A forma que mais trabalho é a circular irregular, com volume ou só com contorno, quase todas as peças têm algum pormenor com esta forma. De resto, considero que as minhas peças seguem alguns traços que as relacionam entre as diferentes coleções, mas vou explorando temas e influências diferentes, são uma espécie de celebração da natureza, de outras culturas, lugares e de memórias.
– Lembras-te da primeira peça de joalharia que fizeste?
Um brinco longo com arame e um búzio, era ainda criança, com uns 7 anos talvez
– Um objeto que levas sempre contigo?
Um caderno de folhas lisas para rabiscar ou tomar notas
– A melhor hora do dia para criar?
Gosto do início das manhãs.
– Um lugar que te inspira?
Jardins botânicos.
– Qual é a tua maior ferramenta: a mão, o olho ou o tempo?
A mão é a minha primeira ferramenta, antes de usar algum utensílio a mão é a primeira a tocar, modelar, sentir. As ferramentas são extensões das nossas mãos.
– Um som ou cheiro que associes ao teu atelier?
O som das limas a tocarem e circularem o metal, enquanto o desbastam e aperfeiçoam. O cheiro das limalhas de metal que fica nas mãos. Os dois são associações de trabalho e de conforto.
– Uma peça tua que te emociona sempre que a revês?
Há várias, mas talvez a que me é mais querida, é uma peça que já tem 13 anos, fiz algumas reproduções e outras guardei. São uns brincos onde utilizei xistos trazidos de uma viagem que me foi muito especial e marcante. Lembro-me perfeitamente do momento em que os apanhei, lembro-me da montanha, das cores, da luz e do calor. Estava no norte da Argentina. Na altura imaginei como queria que fossem essas peças. Quando acontece olhar para eles, transporto-me novamente para aquele lugar e momento.
– Uma palavra que descreva o teu processo criativo?
Atribulado. Passa por momentos luminosos e dolorosos. Geralmente são complexos e imersivos, raramente o resultado é imediato. Há fases de experimentação que podem ser libertadoras e bonitas mas também há momentos de angústia porque não são momentos simples, requerem pesquisa, tentativas, às vezes frustrações.
– Joalharia é arte, memória, ou linguagem?
Para mim é memória – registos à volta do tempo.

Negócio e visão artística de Inês Telles
– O que significa, para ti, abrir finalmente uma loja física em Lisboa?
É a concretização de uma ideia e vontade que já existe há algum tempo, que foi crescendo e ganhando cada vez mais sentido. Abrir uma loja era para mim o que se seguia, sinto o meu trabalho sólido e um percurso de 15 anos de marca com um registo e identidade própria, que é valorizada e procurada.
– Sentias falta dessa proximidade com o público?
Sempre me senti próxima do público, mesmo quando é virtual, ou quando recebemos clientes no atelier ou até mesmo através das lojas parceiras (com quem continuaremos a trabalhar). No atelier, procuramos sempre ter uma relação de confiança e proximidade com os nossos clientes, que são muitas vezes clientes assíduos. A loja vai permitir mostrar o trabalho a mais gente, espero que continuemos sempre a transmitir a mesma relação de confiança, proximidade e conforto.
– Como é que este novo espaço reflete o teu universo criativo?
Por sorte tem uma montra incrível e uma luz muito bonita. Fica virado para a lateral do Jardim da Gulbenkian, o que oferece a vista para uma faixa enorme de tonalidades maravilhosas de verdes, com árvores, flores e arbustos. No interior há vários apontamentos que reproduzem um pouco os elementos que coleciono no atelier e que me inspiram, como elementos naturais – pedras, sementes, corais – têxteis leves e os móbiles que vou fazendo. A montra também será um espaço onde vou interagindo e mudando de decoração com regularidade. Além de todas as peças que exponho, algumas únicas, que com frequência apresentarei em exclusivo na loja.
– Falas muito do tempo nas tuas peças. Achas que vivemos numa cultura que rejeita a lentidão?
Sim, há muita dificuldade na espera, coisa que a cultura do consumo instantâneo alimenta. Mas há também quem valorize o tempo que as coisas podem demorar a ser feitas, se forem feitas por pessoas, se se respeitar os tempos de cada processo. Geralmente há a recompensa de um produto de qualidade, com as suas marcas próprias e uma escala humana.
– A tua joalharia parte muitas vezes da natureza. Como traduzes folhas, fósseis ou sementes em metal?
Sim, a natureza está muitas vezes presente, às vezes de forma mais directa outras vezes mais abstracta e indirecta. As representações literais são moldes realizados através das matérias naturais, às vezes faz sentido utilizar os elementos, como se cristalizasse em metal aqueles pedaços. Outras vezes, posso tentar representar alguns aspectos fundamentais como contornos, texturas, volumes. Como na coleção Floria, que utilizei o decalque de flores, ou a coleção Ecos que construí com sobreposição de tiras de metal, uma espécie de búzio e o que quis representar ao longo da coleção foi o eco dele.
– O atelier da Graça continua a ser o coração da produção. Como concilias a escala artesanal com a gestão de uma marca?
A marca tem desde o início como premissa principal o aspecto artesanal e manual. Valorizamos cada etapa de construção de uma peça, o tempo que cada uma requer, ritmado pelas nossas mãos. Quem conhece a nossa marca sabe que procuramos no artesanal um rigor técnico, com atenção nos detalhes e o respeito pela natureza dos materiais.
Por ter este caráter artesanal, a produção é pequena, cada peça produzida da marca passa por um processo manual e humano e isso dá-lhe um valor único. É um trabalho diário gerir o stock das nossas coleções para ser sempre possível responder à procura.
– Como tem sido o equilíbrio entre o lado criativo e a necessidade de gerir um negócio?
Desde o início que tem sido um desafio, com muita aprendizagem. Penso que será para qualquer negócio próprio, que evolui de forma gradual e autónoma. Cada vez que há um novo passo e um crescimento as necessidades de gestão aumentam e as capacidades e conhecimentos na área de gestão e organização, principalmente para quem é do meio criativo e prático, são limitadas.
Para facilitar um pouco – e quando é possível – tento disciplinar-me para haver dias da semana dedicados à criação, outros à produção e outros de gestão e questões burocráticas.
– A internacionalização da marca já é uma realidade. Esta loja é também uma afirmação para o público nacional?
Penso que mais do que afirmação é uma resposta a uma procura que havia, o atelier é um local que é procurado mas não é tão exposto (nem pretende ser) nem tão acessível como uma loja de porta aberta. A loja online será sempre uma boa hipótese mas ainda assim, nem sempre é fácil escolher uma jóia online. A loja física, é um espaço que está aberto e disponível para ser visitado quando se quiser, com peças para serem contempladas e namoradas, muitas vezes não se trata de uma compra de impulso. Por isso, senti que agora fazia sentido avançarmos para este novo momento, mais exposto e acessível.
– Qual foi a decisão mais difícil que tomaste neste processo?
O meu tempo durante o dia gira sempre à volta do atelier, por mais que haja diferentes tarefas e momentos. Agora, terei de dividir esse tempo com a logística da loja, não é uma decisão difícil mas será um novo desafio.
– O que imaginas para o futuro da marca Inês Telles? Mais lojas, colaborações, novos materiais?
Imagino que posso continuar a explorar os meus caminhos da experimentação e da criatividade, com novos materiais. Posso alargar o atelier para estas novas direções. O resto virá de forma orgânica como tem sido até aqui.
