Onde a alma flui: Marlene Monteiro Freitas infunde água na Culturgest
No coração de Lisboa, a Culturgest prepara-se para abraçar o verão com emoção, sob as águas invisíveis que correm entre as criações de Marlene Monteiro Freitas, num novo ciclo artístico que promete mergulhos profundos no universo líquido. A coreógrafa cabo-verdiana, aclamada internacionalmente e reconhecida com o Leão de Prata da Bienal de Veneza em 2018, regressa ao palco com criações inéditas que exploram a fluidez, a inquietação, a força e o mistério da água.
Sabadou Marlene, cujo trabalho é sempre uma fusão de drama, humor e intensidade dionisíaca, apresenta doses generosas de corpo e imagem. E é sobre esse fluxo orgânico que assenta o novo ciclo da Culturgest: uma espécie de performance-homenagem ao elemento que nos envolve desde o nascimento e nos reconfigura em cada gota, seja nas lágrimas, no suor, ou no mar que banha as costas do nosso país.
A água, nessa leitura, deixa de ser metáfora e torna-se matéria viva, palco privilegiado para sentidos despertarem. Os espetáculos, de acordo com a programação já lançada, prometem transportar o público desde a calma superficial de uma nascente até à violência contida de ondas intensas, passando pela condição humana imersa em movimento e emoção. É uma viagem sensorial que nos recorda: a arte, tal como a água, adapta-se, transforma-se e purifica.
A presença de Marlene Monteiro Freitas na Culturgest é, acima de tudo, um convite à introspeção coletiva. A sua dança não é decoração: é performance que questiona estruturas, dilui fronteiras, reinventa narrativas. A mensagem é clara: somos parte de um grande fluxo interligado, e reconhecê-lo pode desbloquear novas formas de viver, sentir e relacionar-nos, aqui e agora, num Lisboa que respira cada vez mais o ar da cultura.
E se há algo que este ciclo promete evidenciar, é a urgência de reconectarmo-nos com o que nos sustém, essencial, líquido, vivo. A Culturgest não recebe apenas mais um espetáculo: oferece-nos um momento de presença plena, de mergulho emocional, de encontro com aquilo que somos e com o mundo que nos rodeia.

