O Porto redescobre o mundo através dos objetos esquecidos do Soares dos Reis
Num país onde tanto se fala de memória, é no Porto que se faz agora um verdadeiro ato de redescoberta. O Museu Nacional Soares dos Reis abriu as portas aos seus arquivos menos conhecidos e lança uma exposição que é, ao mesmo tempo, uma viagem e um reencontro com a história. Chama-se Horizontes Partilhados: Viagens e Transformações e apresenta ao público mais de 230 peças do acervo que, até agora, estavam fora de vista.
Com curadoria literária do escritor Gonçalo M. Tavares e acompanhamento científico de Ana Bárbara Barros, José da Costa Reis e Paula Fortuna Oliveira, esta exposição convida-nos a atravessar séculos e geografias sem sair do coração do Porto. A mostra parte do tema “Confluências e Criação” e revela o impacto das trocas entre Portugal e várias regiões do mundo, África, Índia, China, Japão, Brasil, nas formas de fazer, sentir e criar arte.
O percurso é dividido em três núcleos que nos guiam como capítulos de um livro sensorial: “Objetos e Viajantes”, “O Olhar (d)o Outro” e “Contaminações”. E é através destes olhares múltiplos que percebemos como as viagens moldaram não só o que trazemos connosco, mas também aquilo que deixamos nos outros.
Entre peças surpreendentes, destacam-se o mastro da embarcação que trouxe D. Pedro IV do Brasil, um alto-relevo com a “Fuga para o Egito” que ganha novo simbolismo em tempos de migrações, e colchas indianas que foram cuidadosamente restauradas para esta mostra. Cada objeto carrega consigo não só a beleza do detalhe, mas também a carga simbólica de quem o criou, o utilizou e o transportou.
O museu, que tem um acervo com mais de 18 mil peças mas expõe habitualmente pouco mais de 1.400, dá aqui um passo audaz e necessário. E fá-lo com entrada gratuita para residentes em Portugal, até 22 de novembro, um convite claro para que todos possam aceder, redescobrir e apropriar-se deste património coletivo.
Mais do que uma exposição, Horizontes Partilhados é um lembrete de que a cultura não está apenas nas paredes dos museus, mas nas rotas que traçamos entre passado e presente, no olhar que lançamos sobre o que (ainda) não conhecíamos. Uma prova de que o Porto, com a sua alma curiosa e cosmopolita, continua a ser uma cidade de encontros, e de revelações.

