Jazz à beira Zêzere: Janeiro de Cima recebe artistas, sopros e paisagens
Se achas que o jazz só vive em caves nova-iorquinas ou em clubes parisienses, então prepara-te para uma agradável surpresa no coração de Portugal: de 6 a 12 de julho, Janeiro de Cima, uma das mais pitorescas Aldeias do Xisto, torna-se epicentro de improvisação, experimentação e comunhão criativa com a natureza durante a Semana Aberta XJazz.
Neste retiro musical com vista para o Zêzere, tudo começa com uma residência artística liderada por Peter Evans, um dos trompetistas mais disruptivos da cena internacional. Entre os dias 6 e 9, cinco jovens músicos portugueses — António Carvalho, Duarte Ventura, Maria João Leite, Júlia Miranda e João Clemente — mergulham numa jornada intensa de composição e improvisação. A cereja no topo do bolo acontece a 9 de julho, às 21h30, quando os residentes apresentam o resultado do seu trabalho numa performance pública ao ar livre, onde o som se mistura com o murmúrio do rio e o silêncio das pedras antigas.
A meio da semana, a noite de 11 de julho traz um momento verdadeiramente sensorial: “Metafísica do Sopro”, um espetáculo de saxofone e vídeo criado por Francisco Correia, que transforma o espaço num campo expandido de escuta e contemplação. Inspirado pela biodiversidade das Terras de Sicó, este concerto-vídeo oferece uma viagem poética e inesperada, à margem de qualquer mainstream.
Mas nem só de concertos vive o XJazz. A manhã do dia 12, entre as 10h30 e as 12h30, é dedicada ao pensamento e à partilha. Sob moderação de Cláudia Pato Carvalho, investigadora do CES da Universidade de Coimbra, artistas, coletivos culturais e associações com trabalho em territórios de baixa densidade discutem práticas e desafios em torno da criação no interior. Uma conversa essencial sobre descentralização cultural, sustentabilidade artística e futuro comunitário.
Para encerrar esta semana que celebra o encontro entre arte e território, o músico Miguel Calhaz sobe ao palco na noite de 12 de julho com o projeto ContraCantos, Vol. 2. Acompanhado pelo seu contrabaixo e pela força da sua voz, revisita clássicos da música de intervenção portuguesa com novos arranjos, íntimos e tocantes. Uma homenagem a nomes como José Afonso, Fausto e José Mário Branco, mas com roupagem fresca e respeito pela memória.
Janeiro de Cima, com o seu casario em xisto e seixos brancos, a praia fluvial no Parque da Lavandeira, e os passeios de barca no Zêzere, transforma-se assim num refúgio criativo para quem procura mais do que música, procura conexão. Com a terra, com as pessoas, com o som. E com aquilo que só o silêncio de uma aldeia pode revelar entre notas.

